O colecionador

March 1st, 2007

 “Navegar é preciso; viver não é preciso.
Quero para mim o espírito desta frase,
 transformada a forma para a casar como eu sou: 
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
 Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo
e a (minha alma) a lenha desse fogo.” 
Fernando Pessoa

Era hábito que herdara não se sabe de quem – dizem que do pai, escritor –, mas desde que me lembro tem essa mania de colecionar palavras. Primeiro as recolhia nos livros e revistas e jogava-as em caixas de sapatos que chamava de “palavrórios”, as quais tinha o cuidado de numerar para não se perder. Nelas misturava de tudo, dos mais cândidos adjetivos aos palavrões mais cabeludos, sem nenhum critério ético, moral ou etimológico – de substantivos psicologicamente complexos, como amor e Édipo, aos vocábulos mais banais, como sicrano ou beltrano, de verbos primordiais, como criar e nascer, a seus antípodas destruir e morrer. Naqueles pequenos baús improvisados de sentidos, conviviam democraticamente altas expressões do pensamento humano, como existência e filosofia, e palavras comuns, cotidianas mesmo, como sim, não, terra, grão. 

Não passava um dia sem que o revisor Antônio Siqueira acrescentasse ao menos um étimo à sua coleção. Com o tempo, já não havia caixas que bastassem para guardar tantas palavras e elas passaram a ser colocadas onde coubessem – sobre a mesa de cabeceira, dentro de vasos, gavetas, na estante da sala e até em cima do guarda-roupa do quarto de visitas. Aquele amontoado de vocábulos – uns velhos, outros novos, uns ricos de significado, outros pobres – era seu orgulho. Aos que o chamavam de louco, ponderava que sua coleção tinha uma função preservacionista: se não recolhesse e guardasse as palavras do mundo, haveria um tempo em que não mais se teria o que dizer, por absoluta falta de palavras, dizia, deixando claro que o que para muitos era pura vesânia, delírio, doidice, para ele era uma possibilidade real, concreta. 

Quanto mais o alertavam para o absurdo daquela mania, mais ele vasculhava o mundo em busca de vocábulos, usados ou inéditos. Passou a procurá-los em tudo que via, lia e ouvia: rádio, televisão, cartazes, muros, portas de banheiro, becos, bocas, botecos, bulas. Às vezes, de tão nova, a palavra praticamente nascia em sua mão – foi o caso de papamóvel, que recolheu casualmente de uma prova tipográfica que leu no jornal em que trabalhava, por ocasião da primeira visita do papa ao Brasil. “Ela ainda cheirava a tinta”, lembrava, sem esconder a emoção, o orgulho, pouco se lixando para o escárnio dos colegas. Assim era Siqueira, caçava palavras como quem caça borboletas, por achá-las mágicas, lindas, fugazes, mas essenciais. A diferença entre ele e um lepidopterista era que ele caçava os vocábulos não para espetá-los mortos em um quadro na parede, mas para preservá-los, livrá-los de uma virtual extinção.

– A tecnologia está matando a palavra; os sentidos estão se perdendo num emaranhado de bits e bugs, de posts e pixels – filosofava hermeneuticamente, acrescentando – primeiro foi a fotografia, “uma imagem vale mais do que mil palavras”, lembram? –, depois vieram o cinema, a televisão e, finalmente, computador, internet, blogs e os chatos dos chats com seus smyles, emoticons, abreviaturas e fonetizações que mutilam os vocábulos: d+, tc, blz, kdvc, kero, axo, naum… Nunca a humanidade conspirou tanto contra a palavra, sentenciava o velho revisor, indignado, não sem alguma razão. 

Siqueira definitivamente era um apaixonado pelas palavras. Não importavam quais ou o que queriam dizer, as colecionava. E de todas cuidava com o mesmo carinho, a mesma dedicação, como se fosse ele o pai de cada uma.  Um dia acordou para arrumá-las nas caixas que guardava no armário do quarto e reparou que um de seus palavrórios estava com a tampa um pouco aberta. De início imaginou que ele mesmo havia esquecido de fechá-lo e empurrou a tampa de volta displicentemente, sem maiores preocupações. Mas, no dia seguinte e em vários outros, observou que a caixa amanhecia sempre entreaberta. Intrigado, depois da quarta ou quinta vez que isso ocorreu, Siqueira resolveu examinar o palavrório e, para sua surpresa, constatou algo fantástico, inimaginável mesmo: os vocábulos estavam se juntando em frases, sentenças, períodos, parágrafos! Como se tivessem vida!

 Como velho e bom revisor, Siqueira notou que o ajuntamento de palavras ainda era titubeante e muitas das frases que se formavam eram incompletas, sem articulação entre as partes, outras cheias de figuras sintáticas ou semânticas – pleonasmos, eufemismos, antíteses, redundâncias, metáforas, hipérboles, silepses e alguns anacolutos típicos de quem apenas começava a descobrir o mundo e a associar as primeiras idéias e significados. Considerou sua descoberta ao mesmo tempo fascinante e assustadora: as palavras tinham vida! Não no sentido figurado, mas no sentido físico, orgânico mesmo! Resolveu não comentar aquilo com ninguém, até para se preservar, pois temia que o chamassem – e talvez agora até com certa razão – de maluco, louco de pedra mesmo. 

Mas desde então passou a ouvir, durante a noite, o chilrear de palavras nas caixas, como pássaros no ninho, mas nada que lhe tirasse o sono. Até que em uma bela manhã de sol sobre sua mesa amanheceu aquela sentença: “Navegar é preciso; viver não é preciso.” A frase, salvo engano, era de Fernando Pessoa, o grande bardo do modernismo português morto em 1935. Mas, vista assim fora do contexto, pareceu-lhe também uma ameaça… Embora não acreditasse em vida após a morte, chegou a cogitar tratar-se de mensagem psicografada do poeta lisboeta, hipótese logo afastada pelo simples fato de em sua casa não haver médium ou mais ninguém, além dele próprio e suas palavras, e de não fazer nenhum sentido este contato sobrenatural. Tratou, portanto, de acalmar-se, separar os termos da oração e recolocá-los, um a um, no respectivo palavrório, onde, a seu juízo, estariam mais seguros. E saiu para dar uma volta, espraiar a cabeça. 

Acabou na Praça XV, onde resolveu pegar a barca Cantareira para visitar um velho amigo em Niterói. Flanava entre as águas azuis da baía e o céu lilás quando ouviu no convés o grito: “homem ao mar!”. Debruçou-se no parapeito da embarcação para ver melhor. O corpo era de um homem quase jovem que trazia algo à mão, detalhe que Siqueira subavaliou de chofre e, segundos depois, monopolizou completamente sua atenção, deixando-o atônito. “Um poeta fracassado…” – deduziu o auxiliar de convés após retirar da mão crispada do morto um bilhete e concluir com falsa compaixão – “…pobre-coitado”, enquanto percorria o papel com os olhos lendo-o em voz alta, ipsis litteris: “Navigare necesse; vivere non est necesse.” A frase fez Siqueira estremecer. Mesmo em latim, a reconheceu: era a mesma que acordara sobre sua mesa àquela manhã, a mesma que, séculos atrás, Pompeu usou para exortar os soldados que relutavam ir à guerra pela glória de Roma e, por fim, a mesma que Fernando Pessoa fez poema para nosso deleite. Aquilo tudo o deixou ensimesmado. Por que a frase, que agora lhe chegava do mar pelas mãos de um poeta morto, o perseguia? A coincidência o deixou aparvalhado. “Não pode ser, é pura coincidência”, pensou. “Coincidência”, repetiu a si mesmo como para se fazer acreditar. 

Ao chegar em casa àquela noite Siqueira não conseguiu dormir. Lá pelas tantas, ouviu novamente aquele chilido de palavras. Levantou-se em silêncio, dirigiu-se ao cômodo contíguo ao seu, parou à porta, inclinou-se até o buraco da fechadura e viu o que nunca imaginou possível: um infinitivo flexionado ao lado da escrivaninha e um amontoado de verbos, adjetivos e substantivos de todos os gêneros fora de suas caixas, acomodados como e onde podiam, em assembléia. Um dos verbos – observou – era um sujeito composto, de voz ativa, que parecia o líder e, após ligeira prédica, discorreu:

 – Estamos aqui reunidos para discutir nosso futuro. Mas antes gostaria de lembrar, a propósito de nossa atual condição, que navios também estão salvo nos portos, embora não seja para isso que tenham sido criados. Minha pergunta é: devemos nos preservar e aceitar o conforto de uma caixa ou embarcar nas páginas desconhecidas do destino em busca de livros, livres? Apenas para lembrar: os grandes navegadores – como disse Epicuro – devem sua reputação aos temporais e tempestades. Portanto, repito, o que fazer? Ontem ousamos deixar um recado, agora nos resta… – disse o sujeito, referindo-se provavelmente à frase do poeta lusitano que amanhecera posta à mesa. E estancou reticente, deixando no ar uma interrogação perturbadora.  

– Mas o que diabos está acontecendo aqui, será um pesadelo?, balbuciou Siqueira, perplexo, sem desgrudar o olho da fechadura. De repente, duas coisas chamaram sua atenção, dando-lhe a medida de quão surreal a era aquela situação: o sorriso enigmático de uma pequena onomatopéia que assistia à reunião em silêncio e – o que achou interessante, mas igualmente estranho – um palíndromo rodopiando em torno de si mesmo, como se buscasse em vão decifrar-se, a exemplo de um cão que persegue o próprio rabo, até que – exausto – conformou-se com sua condição imutável e deixou-se docilmente ler, de frente pra trás, de trás pra frente: “o medo do certo é o treco do demo”. Siqueira chegou a pensar na possibilidade: seria aquilo coisa do diabo? Mas logo atentou de novo para a agitação dos milhares de vocábulos enfileirados em ordem alfabética que ouviam – alheios a sua estupefação e ao destino do pobre palíndromo – o sujeito de voz ativa falar de liberdade, sonhos e possibilidades existenciais.  

“No início, éramos apenas verbo e vocábulos” – exclamou o líder sem falsa modéstia –, “depois vieram tratados e regras para nos asfixiar, nos aprisionar, até o paroxismo da humilhação: pixels! Isso mesmo, querem nos reduzir a pontos fantasmas que pulsam sem sentido, presos a uma tela de luz, sem tinta, sem cheiro, sem vida! Basta! A palavra de ordem é: “Livres! Livros!”, bradou à turba de vocábulos que respondeu em uníssono, entre aspas e aplausos. “Livres! Livros!”. O blablablá político-lexical estendeu-se noite adentro e venceu Siqueira pelo cansaço, fazendo-o adormecer ali mesmo, na soleira da porta.

Ao acordar pela manhã, notou que a casa estava vazia, nas caixas não havia mais nada. Apenas uma palavra jazia sobre a mesa: adeus. Todas as outras haviam sumido, evaporado, como num passe de mágica. Siqueira não conteve a angústia e saiu porta afora desesperado. Mas na rua também não se ouvia ou lia nada. O mundo estava deserto, silente, completamente mudo, estéril. O que ele temia enfim acontecera. Não existiam mais palavras. Na rua, apenas silêncio, solidão, vazio, nada. Só então compreendeu a frase que encontrara sobre a mesa: “Navegar é preciso...” As palavras que ele amara e guardara por toda a vida haviam partido em busca de novos sentidos. A frase era um aviso, sim. Um aviso de que palavras precisam de liberdade para viver suas histórias, dramas, aventuras e paixões, preenchendo o silêncio humano com dimensões e significados que ele mesmo nunca houvera percebido, mesmo tendo dedicado toda a vida ao ofício de amá-las, ouvi-las, decifrá-las. Sim, era isso, pensou, completando a frase do poeta com reverência e nostalgia: “…Viver não é preciso.”

Nivaldo Lemos

Cinzas e diamantes

February 27th, 2007

“Resposta à gentileza: morrer não foi perder, foi acrescentar a formosura. Quanta vantagem faz a formosura do Espírito  à formosura do corpo. Maria enterrou-se flor para se congelar diamante; desfez-se em cinzas para se formar em estrela.”
 Sermão nas exéquias de D. Maria de Ataíde,
Padre António Vieira em Sermões Escolhidos, vol. I,
Edameris, São Paulo, 1965.
 

Santa Filomena era daqueles lugares estranhos que só existem na imaginação dos loucos e dos poetas, e onde os acontecimentos muitas vezes me faziam ao cabo de um tempo duvidar se de fato haviam ocorrido ou não passavam de lendas como as que costumava ouvir da boca de Pedro Nega, um doido manso que tinha por hobby assustar a molecada com suas histórias de horror e encantamento, recheadas de mulas-sem-cabeça, sacis, boitatás e o mais que sua imaginação permitisse. Foi uma dessas histórias que só os loucos concebem que deixou a cidade consternada e marcou para sempre em minha memória aqueles poucos anos em que lá vivi. Aconteceu nos anos 60 e envolveu a professora de português Esmeralda K. e seu marido coronel Fred Kimberley, um engenheiro civil e paisagista sul-africano que, chegando à cidade no final do século XIX, contratou-a para lhe ensinar português. O que ela fez tão bem que acabou conquistando-o e com ele construindo uma história de amor cujo final até hoje intriga e enleia a imaginação.

O coronel não gostava da patente fajuta que lhe fora atribuída pelos moradores da cidade e que traduzia apenas a maneira com que o povo costuma distinguir os que conseguem algum prestígio na comunidade, seja ele econômico, político ou social. Ou os três juntos, o que aliás era mais comum, embora nenhum destes fosse o caso de Fred Kimberley, que conquistou respeito de todos mais pelo jeito afável e solidário com que se relacionava e exercia seu conhecimento. A profissão não lhe rendeu muito dinheiro, apenas o suficiente para, aos 98 anos, desfrutar com Esmeralda o conforto de uma casa ampla e agradável, de três quartos, com um belo jardim e um quintal cheio de árvores frutíferas, onde ele cultivava o hábito de plantar espécimes da flora brasileira, entre os quais tinha preferência por um frondoso acaiacá, árvore da família do cedro que algumas tribos consideram sagrada e que, anualmente, se engalanava de flores e atraía muitos pássaros, além de fornecer a sombra que refrescava a varanda dos fundos da casa, onde ele costumava deitar para meditar. Como engenheiro e paisagista, Fred sempre soubera valorizar a harmonia entre o concreto e o verde, entre as necessidades do corpo e do espírito, pendendo para este, o que o aproximava mais dos poetas que dos calculistas.

Fora assim quando declarou seu amor a Esmeralda com um soneto que, mesmo tantos anos depois, ainda o levava a identificar nele, sem falsa modéstia, uma certa qualidade literária, especialmente no trecho em que descrevia seus sentimentos e desejos:

O dia amanheceu na ruavadio pássaro sem ninhoroubando o teu o encantocom um beijo na  janela nua.E o vento oculto na cortinaergueu a saia da manhãbrindando a sonolenta lua ea minha vida que agora é tua. 

Evidentemente, o senso crítico do engenheiro já não era o mesmo, embora isso pouco lhe importasse, pois Esmeralda, que também se chamava Maria mas odiava o nome, aos 90 anos ainda guardava a folha amarelecida pelo tempo onde ele declarara seu amor, um amor tão profundo e intenso que juravam haveria de sobreviver ao tempo e – quem sabe – à própria morte. E sempre que chegava uma visita um pouco mais íntima, lá se ia Esmeralda com as mãos já trêmulas de velhice e os olhos embaçados pela catarata mostrar o poema esmaecido. Quase toda a cidade já lera Minha Esmeralda e sabia de cor alguns trechos. Orgulhoso, o velho Kimberley apenas entrelaçava as mãos nas dela e sorria, retribuindo em silêncio aquele amor depurado pelo tempo e que a todos ainda admirava de tão forte e obsequioso.

Assim o coronel e sua esposa passavam a maior parte do tempo: sentados na varanda da casa de mãos dadas recebendo os amigos dos tempos em que cidade tinha poucas casas e todos se conheciam pelo nome. Pois nos anos em que os conheci, mesmo ainda pequena, a cidade já não era aquele povoado de duas ou três ruas com um comércio acanhado, a capela da padroeira que lhe dava nome e o grupo escolar onde se conheceram em tempos idos. Não, Santa Filomena agora tinha rodoviária, farmácia, campo de futebol, casas com parabólicas, carros – poucos, é verdade, mas tinha –, prefeitura, posto de saúde e até um shopping-center, o Filomena’s Malll, ícone da modernidade e orgulho dos moradores, principalmente dos jovens. Todavia, ainda era um lugar tranqüilo, desses que a gente encontra no interior e onde a vida parece se arrastar descalça e os dias se repetem um após outro, interrompidos apenas pela escuridão da noite.

Pois foi num dia desses que de tão comuns nada prometem que aconteceu o inusitado – a casa dos Kimberley não abriu portas ou janelas como de costume e o sol ficou o dia todo ali de plantão, contido, sem poder entrar, até que a lua o substituiu no turno da noite e as estrelas e vaga-lumes acenderam e apagaram e outra manhã chegou e mais dois ciclos se cumpriram até que na quarta noite a cidade testemunhou um fenômeno extraordinário: um raio vindo não se sabe de onde atingiu e pôs abaixo a velha casa dos Kimberley, ricocheteou no chão e voou até o velho acaiacá florido, carbonizando-o de cima abaixo como uma serra de luz azul matizando a noite branca de lua. Foi um susto medonho, um verdadeiro horror. A cidade toda acorreu, uns por curiosidade, outros por sincera solidariedade, a maioria estarrecida. Dezenas de mãos atravessaram a noite revirando os destroços na esperança de encontrar alguém com vida, num esforço vão.

O dia amanheceu e, para espanto e perplexidade de todos, sob os escombros e as cinzas ainda fumegantes da casa não encontraram ninguém. Onde ela se erguia havia apenas uma cratera, como uma enorme pira crematória, de cuja base irradiava-se uma intensa luz azulada. Conta-se – e isto, confesso, não me lembro – que no desespero de encontrar vestígios de Esmeralda e Fred, os moradores seguiram a luz até o fim da cavidade aberta no solo pelo raio e, lá chegando, descobriram apenas duas imensas gemas incandescentes que irradiavam um brilho jamais visto – eram dois diamantes puros, um ao lado do outro, lapidados parecia há séculos.

Nivaldo Lemos 

Sobre anjos, meninos e patos

February 27th, 2007

“Somos, aqui na terra, anjos de uma asa só.
Para alcançarmos o vôo precisamos nos abraçar…”
Leo Buscaglia, escritor italiano

Chegaram antes do sol, acordando o silêncio e a manhã mundana com o rufar das asas. Apenas sombras vadias e bêbados notívagos testemunharam a revoada de anjos que tomou conta da cidade acomodando-se em ruas, praças, praias e calçadas sonolentas. Como qualquer criança, traziam pequenas Esperanças e Utopias de estimação, as primeiras eram verdes como periquitos; as segundas, vermelhas como flamingos. Pela manhã, as pessoas acharam inusitadas aquelas estranhas criaturas pulando nos sinais, voando do chão aos ombros uns dos outros, jogando malabares sobre caixotes, pulando carniça, equilibrando garrafas pet no nariz e fazendo palhaçadas com seus bichinhos de estimação – mas logo se acostumaram. Os motoristas assistiam aos breves shows, atiravam uma moeda ou pão e seguiam para o trabalho alegres. À noite, ao retornarem, divertiam-se com a trupe de seres alados que saltavam em trapézios invisíveis, contorciam-se entre carros e engoliam fogo. A cada noite chegavam mais e mais anjos que enchiam esquinas e praças, incorporando-se à paisagem da cidade. Até que, não se sabe como ou quando, começaram a mudar.

Primeiro passaram a hostilizar as pessoas atiçando sobre elas suas Esperanças e Utopias famintas ou exibindo-lhes ostensivamente os pequeninos falos de luz que urinavam auroras a qualquer hora, indiferentes às mulheres que passavam e coravam de desejo e medo. Depois deram para sobrevoar praças e mergulhar nas fontes, refrescando-se do calor do dia, ou tocar fogo nas plumas que caíam das asas para espantar o frio das noites de inverno. Definitivamente, haviam perdido o discernimento e se transformado num estorvo para a cidade – já não agradava vê-los nas ruas, marquises, portas de igrejas. As pessoas não achavam mais graça nem nos bichinhos de estimação que de início tanto admiravam; andavam desconfiadas, evitando até olhar para eles. Aventou-se que poderiam estar doentes ou afetados pelas mudanças climáticas que assolavam o planeta, o que justificaria a queda gradual de suas asas e o aparecimento de garras no lugar delas. Houve quem duvidasse de que eram anjos e afirmasse até que eram perigosos e cresciam e se multiplicavam, sim, o que era uma ameaça ao equilíbrio político e social urbi et orbi. De anjos de primeira ordem tornaram-se potestades das trevas, monstros, gárgulas amedrontadores.  

A cidade apavorada resguardou-se, adotando estranhos mecanismos de defesa: as pessoas passaram a andar em carros blindados com vidros escuros e fechados, instalar câmeras de segurança em todos os lugares, evitar sair à noite ou percorrer ruas e praças sozinhos e, por fim, a construir casas sem portas ou janelas. Havia de se precaver, pois sem asas anjos eram como meninos, não havia como diferenciá-los. Então, passou-se a temer as crianças, e os parques ficaram vazios, os jardins perderam a infância e o medo enfim cristalizou-se, quando a notícia chegou: haviam matado uma mulher com um tiro na barriga. Uma mulher grávida e o seu feto, bendito fruto do vosso ventre. Por motivo à-toa, banal, um relógio dourado que lhe escorria do pulso como o tempo na janela do carro. Por que um anjo, senhor das horas e do tempo primordial, guardião do tempo fabuloso do princípio – segundo consta –, iria querer objeto tão humano e material como um relógio? Pista para a resposta talvez estivesse na frase enigmática pronunciada pelo anjo delinqüente ao ser preso e que os jornais publicaram no dia seguinte: “Ele me disse: até duas mil e trezentas tardes e manhãs; e o santuário será purificado.” A profecia bíblica de Daniel sobre o apocalipse e o tempo do retorno, da recriação, do recomeço parecia fazer todo sentido. A população indignada amaldiçoou o dia em que os anjos chegaram e perguntou-se o que fazer para se livrar deles.

A proposta veio de um velho político, que sugeriu organizar um torneio de caça, a exemplo do que fazem os europeus com patos, marrecos, raposas, texugos e outras espécies. A idéia foi recebida com euforia e posta em prática, tão logo criou-se o regulamento do Primeiro Torneio Permanente de Caça aos Anjos que, em resumo, dizia: 1º - É permitido caçar anjos somente no território estadual e ilhas adjacentes; 2º - Cada caçador não pode abater mais do que dez espécimes por dia, cuidando para preservar, sempre que possível, as Utopias e Esperanças; 3º - É obrigatório obter licença na Comissão Estadual de Caça; e 4º - Para evitar excessos, os participantes obrigam-se a utilizar exclusivamente: a) arma automática – arma de fogo que, mediante uma única ação sobre o gatilho, faz uma série contínua de vários disparos; ou b) arma longa – rifles, espingardas e qualquer arma de fogo considerada longa. Revogam-se as disposições em contrário.

Em poucas semanas, milhares de pessoas se inscreveram na competição e as indústrias e lojas de armas e munições faturaram como nunca. O torneio foi uma chacina. Ou melhor, várias. Um sucesso. A população de anjos diminuiu e, conseqüentemente, o número de crianças – ambos amiúde confundidos – até já não haver mais anjos ou meninos de nenhuma espécie. A cidade enfim respirou aliviada. As pessoas estavam em paz. E mergulharam tão fundo na solidão dos dias que nem perceberam o tempo tingindo seus cabelos de nuvens enquanto as Utopias e Esperanças alçavam vôo rumo ao horizonte da tarde imóvel.

Nivaldo Lemos